sexta-feira, 12 de junho de 2009

Perguntas comuns - Carroll usava drogas ?

Não. Carroll não usou drogas ao escrever a estória. Uma boa parte da estória foi inventada quando ele estava num passeio de bote com um amigo, Alice e suas irmãs. O rumor sobre drogas apareceu na década de 60 por quem apoiava a então nova subcultura do LSD.
Algumas pessoas insistem que um escritor tem que estar usando drogas para inventar uma estória tão criativa. Mas será que não se pode ter uma mente criativa sem necessidade de estímulos ?

Se Carroll estava usando drogas, os livros de Alice provavelmente seriam uma série de cenários desconexos e surrealistas, mas eles não foram escritos aleatoriamente. Eles contêm complicados problemas de lógica e metáforas muito inteligentes (sem mencionar a viagem de Alice pelo País dos Espelhos, que segue os movimentos de um jogo de xadrez). Só poderiam ser o trabalho de uma mente brilhante em pleno controle de suas habilidades. Além disso, encontramos o mesmo estilo de texto em revistas para as quais ele escreveu quando jovem, em seus inúmeros poemas, estórias e outros manuscritos e especialmente nas cartas por ele redigidas. Se os livros de Alice foram gerados por ingestão de drogas, o resto de seu volumoso trabalho poderia sugerir que seu autor estivesse 24 horas sob efeito alucinógeno.

Há, com certeza, uma parte do livro que pode descrever o uso de drogas : a largarta fumando narguille que avisa Alice para comer um pouco do cogumelo. No entanto, Carroll aproveita a estória para fazer piada de todos os aspectos da sociedade e é possível que ele estivesse refletindo a época vivida nessa passagem (notar que este capítulo não fazia parte da estória original, mas foi acrescentado depois !). Na era Vitoriana não havia leis sobre uso de drogas como conhecemos hoje. O ópio, a cocaína e o laudanio (um analgésico que continha ópio) era usado para fins médicos e podia ser obtido com um farmacêutico. Leve em consideração que o LSD nem tinha sido inventado ainda.

Dessa forma, na época de Carroll, era comum experimentar a sensação de estar “alto”, acidentalmente ou não. Contudo, definitivamente não foi a intenção de Carroll escrever um livro sobre drogas. Nenhuma evidência foi encontrada que ligasse Carroll ao uso de drogas. Mesmo nos seus diários, ele nunca mencionou qualquer coisa relativa ao uso de drogas.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Crescer não é fácil

(tradução parcial do texto de Jerry Maata)

Fica evidente que a história foi escrita para as três meninas Liddell, das quais Alice era a mais próxima de Dodgson. No poema introdutório, há indicações claras das três meninas, lá designadas Prima, Secunda e Tertia - primeiro, segundo e terceiro em latim, em suas formas femininas.

Na aparência, a história da Alice caindo em um buraco de coelho e entrando num mundo bobo e sem sentido, é bem ingênua. A estória nas entrelinhas, sobre uma menina atingindo a maturidade, longe de casa, em um mundo governado pelo caos e o absurdo, é bem assustadora. Durante todo o tempo, Alice se confronta, totalmente sozinha, com situações que envolvem animais diferentes e curiosos. Ela não conta com ajuda da família ou do mundo lá fora. Lewis Carroll descreve a queda pelo buraco do coelho como sendo muito longa e menciona prateleiras com livros ao longo das paredes do buraco. Talvez seja uma indicação da fuga através da literatura.

A parte em que Alice cresce e encolhe poderia sugerir os altos e baixos da adolescência, quando os jovens oscilam entre o sentimento de maturidade e infantilidade. A hesitação, tão típica de adolescentes, está refletida nos pensamentos de Alice : "Normalmente ela se dava bons conselhos (embora raramente os seguisse)" Muitos comentários breves apontam para imprudência, inquietação e ansiedade na adolescência.

Um outro exemplo de amadurecimento é o fato de Alice ir se acostumando aos seus novos tamanhos. Ela conversa com seus pés e aprende a nova maneira que seu corpo funciona. Seus sentimentos estão muito abalados pelas novas aventuras e ela chora com freqüência, quando parece ser impossível obedecer às regras do País das Maravilhas. Ou seria isso a fase adulta chegando ? "Tudo está tão confuso por aqui", Alice repete. Ela não gosta dos animais que a tratam como criança, mas, às vezes, fica amedrontada pela responsabilidade que lhe é incumbida. A citação "Todo mundo no País das Maravilhas é louco, de outra forma não estariam aqui" feita pelo Cheshire Cat pode ter um significado existencial. Todo mundo vivo é louco por estar vivo ou todo mundo sonhando é louco pela fuga da realidade ?

Considerando-se que o primeiro manuscrito foi chamado de “As aventuras de Alice no subterrâneo”, fica mais evidente que o mundo em que Alice entra não é apenas um “parquinho” infantil, mas um lugar perigoso e assustador para o amadurecimento. O “subterrâneo” do antigo título sugere, inegavelmente, um paralelo com o Inferno de Dante ou a Bíblia.
Ainda nesse contexto, o magnífico jardim em que Alice quer chegar pode ser um símbolo do Jardim do Éden. Pode-se presumir que Dodgson, sendo um clérigo e um homem estritamente religioso, estava muito familiarizado com os mitos bíblicos, assim como o Paraíso Perdido de Milton. É interessante que, quando Alice finalmente chega no jardim, ela encontra um baralho de cartas no comando, sendo liderado por uma rainha muito má. Parece uma forma de dizer que até mesmo o Jardim do Éden pode ser um caos ou que o jardim não é realmente aquilo que parece ser. E ainda, considerando sua ironia Victoriana, uma maneira de dizer que nossa vida na Terra está o mais próximo possível do paraíso, que é governado por uma Rainha maligna sem o menor respeito pelas vidas humanas. Estas teorias são, naturalmente, apenas especulações.

Talvez a primeira história é uma descrição de uma menina crescendo e saindo da vida de alguém após se tornar adulta. Dodgson perdeu contato com Alice Liddell, em 1868, alguns anos antes da edição do segundo livro. Parece que o primeiro livro é uma homenagem a uma amiga que, com o tempo, se afastará dele e que o segundo, considerando o seu tom, é um epitáfio.